“Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos. Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos. Eu não sou pessimista, sou triste.”

Fernando Pessoa
“Vai ver eu lia histórias demais. Porque vivia pensando em outras que não a minha. Lá pelas tantas da madrugada, quando não havia chance de ninguém ler meus rodeios pelo buraco dos olhos, eu imaginava por alguns minutos embaçados como seria ser outro alguém que não eu. Depois espantava esse nevoeiro todo com as mãos e cerrava os olhos num segundo, porque eu sempre fui feliz assim, lembrava. O silêncio e a escuridão reinavam mais uma vez entre as cobertas. Quando via, me sorria um outro amor que não o meu, e que certamente não existia, mas que cantarolava uma dessas bandinhas de garagem que ninguém escuta, mas que sempre embalaram o meu coração. E esse amor, que não era o meu na vida do lado de fora, também me escrevia poesia e fotografava rosas na minha vida do lado de dentro. Vai ver eu via fotografia demais. Porque nesses flashs corriqueiros tudo me sorria mais bonito, com cores mais intensas, como se fossem retratos feitos em um desses parques temáticos, onde o mundo parece outro até na cor do céu. Nesses flashs eu aparecia com outras roupas, que não as minhas, e com outros sonhos. Que talvez fossem meus, porém guardados do lado de dentro. Eu aparecia e nem tinha o mesmo nome, nem esse rosto assim tão frágil. Fechava os olhos para não me ver assim tão alguém que não eu e me beliscava a mão para manter os pés bem presos à cama e dentro das meias. Tudo bem. Eu continuava tendo o mesmo cheiro de shampoo de antes. Ainda vestia o mesmo pijama de poá. O meu amor ainda era o mesmo, que não sussurrava bandinhas bonitas e nem entoava poemas. Os meus vestidos floridos continuavam no armário. Vai ver eu pensava demais.”

Rio doce
“Estou bastante acostumado a estar só, mesmo junto dos outros.”

Clarice Lispector
“Quando me entrego, me atiro. Mas quando recuo, não volto mais.”

Clarice Lispector
“Hoje eu preciso te abraçar.”

Jota Quest
“Nunca estamos prontos o suficiente para saber de algo, podemos até planejar e tentar no mínimo manter a pose, erguer a cabeça, e através de um teatrinho recebemos a bomba, que por fora não me causou estragos, mas de tão traiçoeira me destruiu por dentro, e o pior, ninguém viu.”

Fred Medeiros
“Confesso. Eu tenho chorado todas as manhãs. Um choro silencioso, atípico, quase de fora pra dentro. Fui obrigada a mastigar o mundo que me desceu goela a baixo, completamente indigesto, um refratário cheio de merda que estava no canto da geladeira desde quinta. Mastiguei tudo. Não vou falar de sonhos, desejos, planos, não vou falar de você, tais palavras não cabem aqui. Eu pude sentir entre os dentes o friccionar do alimento frio, um bolo de angustia a decepção. No estômago, um cemitério vasto de lembranças e da ridicularidade de um ser estúpido que acreditava no amor. Eu me enterrei ali, mergulhei no ácido que corroeu a minha pele e extirpou minha delicadeza. Por fim eu me comi, devorei tudo feito um animal e no final me senti bem, um ser tacanho com um semblante diluído, quase inexpressivo. Repito, estou bem. Os olhos ficaram mais tristes, ainda não estou pronta para seguir, ando na companhia dos meus livros e de velhos amigos, do silêncio, da palavra digitada que escorre pelos dedos e não me deixa mais chorar.”

Elisa Bartlett
“Falo a língua dos loucos, porque não conheço a mórbida coerência dos lúcidos.”

Luís Fernando Veríssimo
“Os detalhes me fascinam, o que foge do normal e escapole do pratico e absoluto. Eu acredito que o intimo e também as velhas questões com quem somos ou o que significa tudo isso possam ser aliviadas através da percepção, observação e calma. Eu tenho descoberto um mundo muito mais interessante no silencio, no vazio ou na palavra certa.”

Elisa Bartlett